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terça-feira, abril 17, 2012

Relação

Era uma relação. Daquelas como há muitas. Particular, nos seus particulares. Doente, morta de espaço, morta de tédio. Um ausente, três ausente. Só haviam dois manifestamente afastados. Não havia nada. Aliás, havia apego. Necessidade de pai, necessidade de mãe.

Era uma relação. Havia cobrança de uma felicidade prometida no futuro. Não tinham presente que não tinham o presente. Como areia fina que escorrega por entre as mãos, o tempo passava e com ele a infelicidade acumulava-se na contagem dos dias empacotados em caixotes.

Era uma relação. Daquelas com álbuns cheios de fotos, com menos amigos e com muitos familiares que não lhes pertenciam no sangue. Com amargura, terror, medo de perder o que se conhecia. Ao menos ali reconhecia-se o cheiro, a cor e a textura. Não era bem o conforto, porque conforto era não estar perto do outro. Conforto era sonhar. Sonhar e esconder.

Era uma relação. Daquelas em tudo parecia estar bem. Em que se alimentava a ilusão e a aparência. Daquelas em que se falava para ser ouvido, mas o outro era surdo e por isso não conseguia ver.

Era uma vez uma relação.

quarta-feira, janeiro 07, 2009

A Máquina da Loiça

a. A loiça que está dentro da máquina está lavada?

b. Sim. …Acho que sim. Eu pelo menos coloquei a máquina a lavar.

a. Hum … não sei não.. (diz ela com ar suspeito)

b. …Mas eu coloquei a máquina a lavar antes de sair de casa. Esta máquina não lava nada bem a loiça. Não percebo.

Ela tira um prato da máquina cheio de restos de comida.

Ele fica com um ar de espanto genuíno.

a. Amor, tu sabes que os anúncios de televisão têm efeitos especiais, não sabes? Aquela cena das mãos dentro da máquina a lavarem a esfregarem a loiça, é uma estratégia muito feia para levar as pessoas a comprarem uma máquina…

b. Hum (pensativo)… continuo sem perceber para que serve então a máquina de lavar loiça…

a. Também eu, também eu...

quarta-feira, dezembro 31, 2008

Encantamentos

a.: Mas...

b.: Não, não estás a perceber..

a.: ... não me digas que ainda acreditas em dragões, princesas encantadas, príncipes mágicos..!

b.: ... isso é outra questão. O que quero dizer é que eu acredito no meu príncipe encantado. No meu. E tu sabes quem é o meu príncipe encantado?

a.: Não... não sei.

b.: É um homem comum, só que é um homem que sabe sentir-me. Sim, eu ainda tenho um encantamento que não quero ver quebrado.


(para ti, que estás longe. Perto de Glastonbury.)

segunda-feira, dezembro 22, 2008

Para Pensar..

"A liberdade tem a ver com escolhas. É necessário libertar-se dos condicionamentos negativos que limitam as escolhas. Diz-se que ter uma opção é uma prisão, ter duas opões é um dilema e só a partir de três opções é que há realmente escolha. "
(Luzia Wittman)

quarta-feira, outubro 15, 2008

Dos Chavões





A maravilha das frases feitas é uma daquelas coisas que continua a deixar-me surpreendida pela negativa.


Já não suporto ouvir a mesma coisa em momento críticos. “És forte! Tu consegues superar e dar a volta..! És uma menina muito forte. Vais ver que isso não é nada.”


O que dizer?

Obrigada pelo elogio!


Ou talvez,

Obrigada pelo voto de confiança!


Ou então e que tal,

Para ti também!


Não me leve a mal quem quer que eventualmente já me tinha dito algo parecido. É que hoje, particularmente hoje, soube-me tão mal ouvir aquilo que não me deixa chorar.


Enquanto falava, estava a pedir colo para chorar. Queria mimo para consolar a dor que teima em doer. Era só mimo.


Queria descansar. Sabem? Aquele descanso do guerreiro. Descansar da luta só por agora, para depois voltar à carga ainda com mais força. Queria um momento de paz, por muito incerta que ela possa ser. Queria silêncio num abraço apertado.


Não pode haver força sem fragilidade. Hoje era um momento desses.


Quando se ouve um chavão daqueles, só apetece gritar desesperadamente e fugir. Só queria mimo. Hoje, só queria mesmo era colo. Porque hoje, não conseguia ter força para ser forte.


quinta-feira, maio 10, 2007

Nem sempre é fácil...

Já pensaram nas pessoas que nos aparecem pelo caminho?

E nas situações com que nos deparamos, já pensaram?

Eu penso nisso com alguma regularidade. Tento dissecar, analisar e perceber o padrão.

E a vida vai sempre trazendo os testes. Esses, os testes, que aparecem a cada vez com camuflagens mais e mais requintadas, servem para nos alertar da necessidade de apurar os nossos sentidos não sensoriais. Afinam aquilo que precisa ser trabalhado.

Tive mais um desses testes. Reconheci aquela energia a partir do momento em que a vi. Primeiro aquele vício visceral de querer ver, sentir, cheirar, ouvir e gostar. Arrepiei-me e reconheci. "Conheço-te", pensei.

Confirma-se, reconheço-a.

O desejo quer percorre-la. Respirá-la. Cada célula do corpo estremece em sintonia e é permeável a tudo o que não pertence a este mundo. Por momentos a razão deixa de existir e a vontade da entrega é movimento inconsciente.

De repente, a memória abre a porta e pergunta: "mas isso eu já vivi, não é?"

Lamento-me ao dizer que sim.

Fico triste porque me apetece, mas não me quero em repetição. Mas fico feliz, muito feliz, por saber que já consigo ver antes de lá estar.

sexta-feira, maio 04, 2007

Intermitências

Falemos.

E continuemos a falar. E mais ainda, falemos.

No outro dia, parece que nasceu um mim uma outra pessoa. Não foi assim, de um momento para o outro. Ela andava a tentar crescer para poder ter forma cá forma. Andava à procura de uma forma nova para mim. Fui construindo. Diariamente. Lentamente. Andava ansiosa para ver como seria. Não fazia ideia de como poderia ser, sabia e afirmava que teria que ser decidida. Tinha que ser assertiva, tinha que ter acesso ao poder interior e usá-lo com clareza e objectividade. Sabia que tinha de ser uma mulher.

Senti-me assim.

Não importa o faça, desde que o faça com amor. Interiorizei. É um caminho para me levar ao algum lado. E eu sei qual é. Focalizei.

E ando intermitente.

Quanto mais próximas são as relações, com maior intensidade nos projectamos e estamos nelas. Ontem ia morrendo de susto. Mas eu sabia que estava para acontecer. Afinal, nós no fundo sabemos tudo. Ou então não sabemos, e quando usamos essa expressão... usamo-la simplesmente para colmatar uma falha interior muito grande: a de não sabermos nada. E temos que nos centrar nas evidências. E é aí que nos sentímos culpados, doentes.... ah, e já referi culpados?

A minha mãe está em processo há algum tempo. E agora? Agora é o culminar de tudo aquilo que foi sendo acumulado durante anos e anos de tristeza.

E eu?

Eu agora só me consigo adjectivar de péssima para baixo.

Eu sou a psicóloga clínica que nem filha consegue ser.

Afinal, não nasceu a nova forma em mim. Foi um vislumbre daquilo que poderia ser.

segunda-feira, abril 23, 2007

Dicas Preciosas

Quando forem a um entrevista de trabalho e vos perguntarem alguma coisa acerca do vosso perfil profissional, pensem bem e não respondam algo parecido como: "eu acho que gosto de trabalhar, não sei..." É uma frase suspeita e pode dar azo a levantar sérias dúvidas à entrevistadora acerca do próprio papel dela, naquela altura e naquele lugar.

Quando elaborarem um currículo, tenham cuidado com o que colocam na secção de experiência profissional. Se não a têm, não a inventem. Correm sérios riscos de nem sequer vir a ser chamados para uma entrevista. Sim, é um facto, ter estado a "colaborar" na barraquinha de curso da semana académica durante 3 noites, nas quais possivelmente bebeu-se mais do que se deu a beber, não é contabilizado e quanto muito pode dar pontos negativos.

Continuando numa de currículo. Se têm hobbies, fantástico. Tanto melhor para vocês. Mas montar puzzles e fazer criação de peixes de aquário é muita coisa junta num só parágrafo. Principalmente quando já têm 35 anos e não conseguem estar mais do que 2 meses no mesmo local de trabalho. Isso pode ser sintomático...

E pronto já foram 9 entrevistas. Já só faltam 140.

terça-feira, dezembro 05, 2006

Nada Mais, Só Silêncio

E de repente já não se precisa de nada. Não precisamos de nada porque nada serve. Um curso não serve, um trabalho não serve, uma roupa não serve... tão pouco o dinheiro. Porque ele efectivamente não compra nada. Rigorosamente nada. Nem saúde. Ele serve para termos a desculpa de inventarmos necessidades e desejos, para colmatar falhas que julgamos serem a desculpa da nossa miserável condição: a de simplesmente existir.

…

Amanhã faz uma semana que nasceu a Mariana. A esperada e desejada filha da minha colega de trabalho. A mãe da minha colega liga para dar a notícia. Tinha o sol na voz, e dizia “já nasceu, sou avó de uma menina linda. Foi um parto normal, nasceu às 13h30 e é perfeita. E está tudo bem com a Cecília.”

No dia a seguir, soubemos a notícia que mais parece ser uma mentira. “A menina está mal, vai ter que ir para a Estefânia.” Entro em choque. Não quero acreditar. Mil e uma perguntas aparecem na minha cabeça, e todas elas temem ver-se respondidas. Porque se forem, é demasiado real. Penso imediatamente que a informação que me estava a ser transmitida não tinha fundamento. Ligo à Carla, a minha amiga enfermeira, e ela diz-me o impensável: “Ia ligar-te Telma. Mas percebo que já sabes. A filha da tua colega está mal e o prognóstico não é bom. A situação está a evoluir de uma forma muito rápida. É um tumor cerebral que está a crescer em exponencial. Não há forma de o travar.”

De imediato tinha a evidência, a prova cientifica a martelar nos meus ouvidos. Já não havia perguntas objectivas. Começaram a soar os porquês. A baterem ruidosamente na minha cabeça.

Apetece-me chorar. Vivi a gravidez todo este tempo e não me apercebi. Vi a barriga crescer, os vídeos da bebé a mexer-se na barriga da mãe, vi as fotos a três dimensões, vi a vida a crescer… Era um dado adquirido que estava tudo perfeito.

E num espaço de 10 horas a felicidade toma a forma do seu extremo oposto. A tristeza, a angústia e a dúvida enchem a mente e o coração. Mesmo sabendo dos dados, a esperança não desaparece. Até ontem. Faleceu. Já não há nada a fazer. De um momento para o outro um sonho foi rasgado, retirado à força, partido...

Em cada passo que dou questiono Deus, a Vida, o Universo, a Existência. E penso que nada disso existe.

Até hoje não consegui ir ter com ela. Sou uma cobarde. Invento mil e uma desculpas e não consigo ir, estou à porta e não consigo subir. Digo a mim mesma que envio a energia positiva até ela. Digo também que se lá chegar vou desatar a chorar e não quero fragiliza-la mais. Digo isso e muito mais. Não há nada que possa fazer, mas gostava de lhe dizer que não podendo fazer nada, estou disponível para dar a mão, estar em silêncio e ouvir o que não há para dizer.

sexta-feira, novembro 03, 2006

1ª Sessão - Anamnese

Anamnesis do grego aná que significa trazer de novo e mnesis que significa memória.

Olha-se ao espelho. Ao contrário de Narciso não se apaixona por si próprio. No entanto, deixa antever o mesmo final trágico.

Olha-se ao espelho. A imagem reflectida é demasiado real para poder ser bonita. A expressão dura é marcada pelas emoções que o tempo teima em marcar no rosto.

Olha-se ao espelho. É o quadro vivo daquilo que não queria ser pintado em si.

Olha-se ao espelho. Admira-se.

“Se me quisesse tanto, quanto aquilo que em mim não me quer.”

Pensava.

“Aí, o que eu seria feliz”.

Dizia.

"Espelho, espelho meu, haverá alguém mais perdido do que eu?"

terça-feira, outubro 17, 2006

Não, o blog não morreu..

Não este blog ainda não morreu. Parece que já tem os dias contados… Mas ainda não tem.

Esteve fechado para férias. Para umas mini-férias.

Férias, esse estado de tempo que é passageiro. Parecido a uma tempestade tropical. Assim como vem, desaparece num instante. Não deram para fazer nada de jeito. Mas convenhamos, o que há para fazer nas férias a não ser fazer nada.

Pelo menos a casa já tem um consultório em condições com uma decoração minimalista, um sofá semi-psicanalítico (isso queria eu) e uma mesa-secretária devidamente bem colocada para abraçar os pacientes que por ali passam. Mais uma coisinha aqui e outra por ali. A coisa está devidamente composta.

Falta o dinheiro para passar às outras divisões e deixá-las em ordem. O dinheiro, esse malvado…


Em vez de sair das férias plenamente satisfeita e contente… hoje estou com umas trombas daquelas. E não é de ter retomado à rotina do trabalho. Mas também não deixa de ser. Fui ontem a uma entrevista. E parece que o segundo lugar está sempre reservado para mim. Já perdi a conta à quantidade de concursos a que fui nas últimas semanas e dos quais sou excluída ou em que fico em segundo lugar. Merda.

Um pensamento recorrente passa pela minha cabeça vezes sem conta. E possivelmente estará na altura de o aceitar como sendo uma verdade última. “Eu não mereço ter uma entidade empregadora, porque eles simplesmente não me merecem… ou então, eu simplesmente não nasci para ter uma entidade empregadora que me assegure um ordenado fixo até ao final do mês. Até porque não sei se isso me serve.” Atribuição causal interna ou externa?

E verdade seja dita… para além de ser uma explicação… tão válida como outra qualquer…Também consigo reconhecer nela alguma verdade. Sinto-me a morrer lentamente com o trabalho rotineiro que desempenho. Não tenho prazer naquilo que faço. As tarefas são tão simples que até adormeço a realizá-las. Não tenho paciência para as crises laborais, para as intriguices, para a incompetência de uns, para as arreliações de tantos outros… para a falta de estímulo intelectual que tanta falta me faz. Preciso de criar o meu próprio trabalho. Pensava que teria que começar nos primeiros anos a tentar arranjar uma forma de criar uma base financeira, a partir da qual me pudesse jogar com toda força para arriscar com toda a garra naquilo que gosto de fazer. Mas está a tornar-se insustentável.

Abençoadas consultas que faço no meu horário pós-laboral. Agora que vou começar a dar alta aos meus pacientes… lá vou ficar com essa porta quase que encerrada… Toca a imprimir mais cartões e distribui-los.

E assim, como que de repente… um assunto pendente voltou a invadir o meu coração. Tarot.. Que papel tens tu na minha afirmação pessoal e profissional? Deixei-o há uns anos atrás, após umas consultas que já foram realizadas no âmbito semi-profissional de aconselhamento de tarot. E…onde não conseguia controlar a informação que passava para os pacientes. Que sustos. Tenho saudades do Tarot… de mexer, de ler, de aprender. Acho que está na altura de integrá-lo de uma forma mais plena e consciente. Chega de passar por ele e de lhe piscar o olho.

E não é que quando estou em aconselhamento psicológico, sinto um processo muito semelhante aquando da utilização do tarot? Mas aqui… é complicado. Há coisas que não devem ser ditas… ou será que se devem mesmo dizer?

Chega de escrever por agora..
Até breve!

ps: Goddess Guidance Oracle, quero estas cartas para mim! São tão giras..!

terça-feira, agosto 29, 2006

I Wish..



Ás vezes falham-me as palavras..

Ás vezes sou arremessada por um turbilhão de sentimentos e emoções.

Hoje gostava de ser um silêncio mudo, cheio e imperturbável.

Hoje gostava de poder contemplar a vida.

Sem horários a cumprir e sem solicitações externas a todo o momento.

Simplesmente contemplar e voltar a casa.

sexta-feira, agosto 11, 2006

Aí o Medo!!


Durante grande parte do tempo carregamos uma certeza inabalável. Daquelas que são como que uma condição auto imposta para sermos “mais felizes”. Chega um dia e conseguimos. Estamos em via de realizar essa condição, e depois não é bem assim… falta mais qualquer coisa. É aquilo a que chamo de síndrome de “falta-me mais qualquer coisa para atingir o estado de felicidade”. Ou então é simplesmente insatisfação.

E muitas vezes junto com a iminência da coisa tomar forma, aparecem aquelas dúvidas manhosas do tipo: “Será que vou ser capaz? E se eu não conseguir? E depois?”. As desculpas que o medo camuflado inventa para ir aparecendo devagarinho…sorrateiramente e devagarinho..

O que é certo é que uma nova fase está as às portas de se concretizar. Um outro estádio de responsabilidade está a instalar-se. Vou ter uma das coisas que há tanto tempo queria: a chamada independência.

O que é certo é que aquela dúvida persistente não me larga. Será que vou conseguir? Será que assim ainda vou conseguir juntar dinheiro para fazer o mestrado que ainda não escolhi? Será… será?

Decidi hoje: As dúvidas vou entregar à vida. Assim como assim, as respostas vão ser aquelas que eu estiver preparada para receber.

Ps: ando à procura de uma garrafeira bonita… e de bom vinho tinto para a preencher dignamente… isto merece uma ou mais celebrações.

segunda-feira, julho 31, 2006

Excessos




Há dias em que se duvida de tudo. Há ainda dias em que o cansaço é tão grande que pensamos que vamos ceder. Há dias em que o limite afinal não é propriamente aquele que julgavamos ser e ainda se consegue esticar a corda um pouco mais além. Ando com medo que ela quebre.

sexta-feira, julho 07, 2006

Repetições


Parece que me vou repetir mais uma vez. Não faz mal. Diz quem sabe que da palavra nasce a luz. Espero que sim.

Espero não estar a entrar no campo da repetição excessiva. Seria a patologia a entrar em acção. E não faz a patologia parte do foro daquilo que não é criativo? Aqueles que supostamente são chamados de normais, arranjam respostas criativas às propostas que a vida lhes dá. Quando entramos no campo da repetição, entramos num estar em que usamos sempre a mesma resposta, que supostamente falha, e é aí que vamos comprovar aquilo que já pensávamos que iria acontecer. “Claro, eu já sabia que isto ia acontecer”. Da criatividade da resposta surge uma nova adaptação, um novo estar, uma outra iluminação e um outro campo de experiências aparece.

A partir de quantas repetições poderemos dizer que já entrámos no campo da patologia? Duas ou 200? O que me parece importante é a percepção de que em determinadas esferas da vida não se sabe agir senão daquela forma inconsciente. Somos empurrados quase que por uma força invisível até uma barreira. Essa força compulsiva cria uma obscuridade e provoca uma amnésia mental das artimanhas psíquicas que estiveram envolvidas no processo. Essa tomada de consciência poderá ser o fio condutor para o desbloqueio. Enquanto não "vem" essa tomada de consciência o que permanece é a dor psíquica, um mal estar interior que se progaga e impossibilita uma visão clara e objectiva.
O que é um padrão senão a inconsciência da repetição de um comportamento? De um hábito há muito instalado, que por isso mesmo já está emaranhado na rede global e complexa da mente. Sinalizá-lo, arrancá-lo desse emaranhado, observá-lo, estudá-lo, percebê-lo e depois modificá-lo. Ser criativo nessa modificação vai trazer mudanças significativas no ambiente interno, e, a qualidade daquilo que passamos para o exterior é diferente. Evidentemente que a qualidade daquilo que recebemos será também ela na mesma proporção. Aí nem é preciso falar para o exterior perceber a alteração, porque passamos a emitir um estar diferente e o que vem até nós é uma resposta em consonância com aquilo que começamos a produzir interiormente.

"Vamos mudar o disco? ...já tocou o suficiente e convenhamos..está riscado."

sexta-feira, junho 09, 2006

Desabafo


As cores, os cheiros, os sons… as palavras. A existência. As batalhas que se travam. A vida. Os humores. A vontade. Os momentos. As pausas.

Preciso do silêncio. Estou farta da poluição ruidosa que encontro no trabalho, nas conversas de café, nos comboios... Estou cheia de momentos em que o silêncio é demasiado desconfortável. Estou cansada de palavras e mais palavras ocas que só se dizem para preencher um vazio interior que incomoda.

Quero chegar a casa, depois de um dia de trabalho, e ter vontade de fazer aquilo que me preenche. Quero respirar vida, quero ser vida.

Como é bom ser uma guerreira, uma deusa completa, grandiosa com o poder de invocar toda a plenitude que vai dentro. Já tive momentos assim, as pausas é que são demasiado grandes no tempo que corre. Se a vontade não estivesse ao serviço dos humores que flutuam, as batalhas que se travam não pareceriam em vão. É incrível a força que cresce e que espanta quando aparece destemidamente. Como é bom existir assim.

Quero a permanência desse estar em mim. Quero que as pausas sejam pequenas e transitórias. Hoje sei o que quero. Amanhã gostaria de continuar a saber.

sexta-feira, junho 02, 2006

Respeito



Estou sempre a ler alguns (para não dizer muitos) livros ao mesmo tempo, é uma mania que não passa e que parece que com o tempo só tende a agravar.

Ando a ler de tudo um pouco. Agora um dos livros que me prende a atenção é “A Arte de Amar” de Erich Fromm, um piscanalista. É um livro que já andava a “olhar para mim”, que um dia comprei, e que como tantos os outros ficou na prateleira a aguardar a vez na fila de espera para ser lido. Lá está, às vezes a disponibilidade para ler não tem que ver só com o tempo da rotina instalada, tem que ver com outros tempos interiores que abrem outras portas de percepção.

Ainda não cheguei ao final livro, nem sei se o irei fazer. Às vezes compra-se um livro para chegar a um parágrafo, a uma linha que nos fala por palavras aquilo que vemos dentro de nós. E cumpre-se assim o propósito da leitura. Pelo menos, por agora. Mais tarde tira-se o pó, abre-se outro capítulo e retoma-se a leitura.

Voltando ao livro, Fromm apresenta uma escrita fluida, objectiva e orientada. Fala, tal como o título indica, do Amor. Ele afirma que
“não é só no amor que dar é receber. Os professores também são ensinados pelos seus alunos, os actores são estimulados pelo público, os psicanalistas são curados pelos pacientes – desde que não se tratem como objectos e se relacionem de uma forma genuína e produtiva.”

Entre muito daquilo que é dito, diz que no acto de amar a componente de dar, aquilo a que chama o carácter activo do amor, implica a existência de elementos básicos e comuns a todas as formas de amar. Esses elementos, de acordo com o autor, são o cuidado, a responsabilidade, o respeito e o conhecimento.

Cuidado activo pelo crescimento daquilo que se ama, responsabilidade face às necessidades psicológicas da outra pessoa, respeito para com o crescimento e desenvolvimento da outra pessoa por si mesma e o conhecimento objectivo daquilo que somos e daquilo que o outro é, para ver além da imagem ilusória por nós criada acerca daquela pessoa.

Aprendi pelo menos uma coisa nova até à data. E não tem que ver exclusivamente com o Amor mais “personalístico”, tem que ver com o Amor nas suas mais variadas formas. Respicere é a raiz etimológica da palavra respeito e que quer dizer “olhar para”. Há muito que falo nesta palavra, e com ela vem sempre uma sobrecarga emocional grande. Há uma mágoa que se cola automaticamente a ela. Não sei se por sentir que me sinto em falta desse olhar para comigo, de mim para mim, de mim para os outros e/ou dos outros para mim. Mas é sem dúvida por essa falta de “olhar para”.

segunda-feira, maio 22, 2006

Dias Cinzentos



Apetece-me escrever. Só não sei sobre o quê. Até na escrita se reflecte o meu estado actual: uma melancolia que se instala, que se encosta e que se perde na minha sombra. Apetece-me gritar por socorro. Apetece chorar-me e mergulhar na dor. Apetece-me ser alguma coisa que não eu.

Não, afinal não me apetece nada disso. Afinal gostaria de ser eu. Quero ser aquilo que nasci para ser, e já! E não venham com merdas de ensinamentos que ainda estou na preparação daquilo que nasci para ser. Não acredito em tal coisa, não existe tal coisa. Ou somos ou não somos aquilo que nascemos para ser, não há preparação para tal coisa. Ou somos ou não somos. Ou estamos no caminho que é um reflexo daquilo que somos ou não estamos. E eu não sou aquilo que deveria de ser. Sou um espectro que vive na sombra daquilo que poderia ser. Sou uma ferida aberta que não cura. Sou um estar que não está. Sou a pouca coragem que pede coragem. Sou a tristeza que pede alegria. Sou a vida que pede vida. Sou o sonho que pede que tome forma. Sou o sentir que pede para sentir mais. Sou a loucura que se pede loucamente sã. Sou o abismo que pede o salto.
Não sou nada.
Em todo o instante boicoto a entrada nesse estar que sou eu. E aí sim, acredito. Sim, a todo o instante temos o poder de escolher. E eu escolho estar miseravelmente perdida na dor e de não estar a ser eu como poderia ser.

E agora sim, vou gritar: "Socorro!!! … Salva-te de ti mesma."

Afinal, já não me apetece escrever.

quinta-feira, maio 18, 2006

Estares

Imagem de Joseph Cusimano


Desde muito cedo que me identifico com as linguagens que apelam ao meu lado intuitivo. Estas linguagens sempre produziram em mim um fascínio inexplicável. E são elas que conseguem dar imagens de tudo aquilo que vejo, sinto, intuo e que penso num pensamento que é demasiado rápido para ser falado.

Gosto por isso mesmo de estudar para além da Psicologia e do ser humano, o Tarot, a Astrologia, a Mitologia e Metafísica… pelo caminho ficaram inúmeros contactos com outras expressões de comunicação catalogadas de esotéricas. As que referi, no entanto, permaneceram ou permanecem de uma forma mais ou menos metódica.

Sempre, ou melhor dizendo, quase sempre que alguém sabe que dedico alguma parte do meu tempo, dinheiro e energia a essas questões… dá-se quase como que um choque. A outra pessoa quer entrar numa luta de ideologias e numa guerra de palavras sem sentido. Numa primeira etapa eu encarava esse encontro como sendo uma verdadeira luta, e como nas lutas há sempre alguém que ataca eu colocava-me numa posição onde a defesa era o estar perfeito, o oposto complementar. Gradualmente, fui conquistando um estar em que não preciso de entrar em discussões sem sentido e cujo o propósito único é alimentar a intolerância e a ignorância de quem fala daquilo que não sabe. Esta última frase pode parecer arrogante… Mas eu não posso falar de conceitos de física, sem saber sequer o que é a física... se não souber, coloco-me numa posição em que gostaria de aprender. Não num monólogo surdo em que se remetem mil e uma questões que nem se querem ver respondidas.

Eu não me importo com facto de muitos de vós despenderem do vosso tempo, dinheiro e energia com o futebol. Não critico, nem tento de alguma forma questionar o vosso estar na vida. É o vosso, e nada tem que ver com o meu. O vosso estar não coloca em causa o meu. Não me sinto ofendida, nem atacada por essa opção. Não vos questiono se acreditam no Futebol. Eu acredito no respeito, na tolerância e na liberdade e vocês?

quarta-feira, maio 10, 2006

Há Dias Assim



Confesso que estou um pouco irritada, diria até profundamente enraivecida. Dizem que é bom que estes sentimentos aflorem no nosso íntimo, com a delicadeza e subtileza característica dessas emoções. Eu pessoalmente fico mais irritada só de pensar que estou irritada. Quando sinto então que estou irritada, a coisa toma proporções inimagináveis. Pelo menos interiormente. É a isto que os experts denominam de raiva voltada para dentro…

Quando se fala em irritação, penso eu, temos também que falar da direcção que a irritação toma. Ou seja, qual o objecto/alvo dessa irritação. Confuso?


Nós não estamos irritados pela simplicidade e pela leveza que esse sentimento nos proporciona. Estamos irritados, por exemplo, porque uma mosca lembrou-se de existir e passar pelo nosso campo de visão. Ou então, porque houve alguém que fez alguma coisa que nos desagradou (geralmente aquelas pessoas que conhecemos ou julgamos conhecer mais profundamente)... Ou então, porque acordámos com esse sentimento… (mas, para acordar com esse sentimento, alguma coisa andamos a remoer inconscientemente para essa irritação nos despertar logo pela manhã)

Pois bem, hoje fui invadida por uma das minhas pequenas e doces irritações. Daquelas que consomem alguma da minha energia anímica-mental. A que questão que se impõe é: o que fazer então com este extra de energia que me acompanha?

a) Esmurrar a primeira pessoa que esboçar um sorriso simpático e que me trate bem?
b) Contribuir graciosamente para o mal estar geral de todos aqueles com quem estou no dia de hoje? E, permitir assim que esta irritação seja contagiante tal qual como um vírus gripal mutante que suavemente se propaga a uma velocidade vertiginosa?
c) Comprar um saco de boxe e colar uma fotografia de alguém e/ou da situação que me “incomoda”?
d) Fazer uma sessão de relaxamento e visualização? Imaginar que uma luz branca percorre o meu corpo, e que estou sentada numa nuvem felpuda a inspirar essa luz branca e expirar um fumo cinzento correspondente às sensações negativas que estou a guardar no meu intimo…
e) Fingir que afinal não estou assim tão irritada e que não há nada que me esteja a incomodar? ... afinal, é apenas uma pequena comichão no dedo mindinho do pé.
f) Todas as anteriores.
g) Nenhuma das anteriores.

Curiosamente, só o facto de ter "falado" da irritação fez-me sentir bem melhor..

Bem, agora vou trabalhar a minha Assertividade.
Até já.