Mostrar mensagens com a etiqueta Contos. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Contos. Mostrar todas as mensagens

terça-feira, abril 17, 2012

Relação

Era uma relação. Daquelas como há muitas. Particular, nos seus particulares. Doente, morta de espaço, morta de tédio. Um ausente, três ausente. Só haviam dois manifestamente afastados. Não havia nada. Aliás, havia apego. Necessidade de pai, necessidade de mãe.

Era uma relação. Havia cobrança de uma felicidade prometida no futuro. Não tinham presente que não tinham o presente. Como areia fina que escorrega por entre as mãos, o tempo passava e com ele a infelicidade acumulava-se na contagem dos dias empacotados em caixotes.

Era uma relação. Daquelas com álbuns cheios de fotos, com menos amigos e com muitos familiares que não lhes pertenciam no sangue. Com amargura, terror, medo de perder o que se conhecia. Ao menos ali reconhecia-se o cheiro, a cor e a textura. Não era bem o conforto, porque conforto era não estar perto do outro. Conforto era sonhar. Sonhar e esconder.

Era uma relação. Daquelas em tudo parecia estar bem. Em que se alimentava a ilusão e a aparência. Daquelas em que se falava para ser ouvido, mas o outro era surdo e por isso não conseguia ver.

Era uma vez uma relação.

terça-feira, dezembro 30, 2008

A Flor ...




Já não tenho caprichos - pensa a flor.

E o que é uma flor sem caprichos? - continua ela a reflectir.

De que me serve o meu cheiro inebriante se não tenho ninguém para me cheirar?

Então, e de que valem estas cores bonitas se não me posso passear e mostrar?

… aí! o que eu não dava para poder andar! (grande suspiro)

Ufa! Ainda bem que não sou caprichosa!

terça-feira, outubro 07, 2008

Tinha-me esquecido..



Ar de menina, coração de mulher. Esqueci-me de te dizer. Mas não faz mal, posso dizer agora, não é?

Quando julgas que quebro, não desanimes. É também essas alturas que vou buscar mais Força e, é também nesses momentos consigo ver mais do que nunca a imensidão do Amor que sinto por ti.

A minha impertinência que é mais que muita, o meu ar de reguila que confundes com ar de vaidosa é postura de quem não irá deixar cair os braços sejam quais forem as circunstâncias.

É fé disfarçada nas sardas de menina, na luz que os olhos não escondem, é olhar que ilumina tal qual um farol de cada vez que pensa nas possibilidades que podem ser ainda hoje.

São caracóis desalinhados de carinho que crescem só para ti.

terça-feira, agosto 12, 2008

Viajante


(Foto de Miguel Montes)

Seguia em frente.

Tal qual o Louco, que leva consigo uma sacola, cheia de tudo o que pode existir no mundo.

Não olhava para trás. Não porque não quisesse ver os caminhos por onde tinha passado. Simplesmente não queria viver mais aqueles trilhos. Foram passagens, pensava.

Agora, só queria experimentar outros percursos. Por isso, seguia em frente.

Chegou a um tal ponto da sua caminhada, que já nem sabia qual o significado da palavra medo. Hoje, personificava a Coragem.

Curiosamente nem se dava conta desse seu feito, dessa sua conquista. Aquela conquista que se quer do pé para a mão, mas que só se consegue caminhando.

Era feliz, tinha descoberto sem querer o significado da sua vida, mas ainda não o sabia de forma consciente… por isso continuava a andar, porque intuitivamente sabia por ir. Era essa a ligação que procurava sem saber.

Hoje, finalmente estava consigo.

segunda-feira, agosto 04, 2008

A Menina que Apanhava a Chuva


(foto de Salih Guler)

Era uma vez uma menina, uma menina assim como eu ou como tu.

Ela acreditava que as nuvens carregavam sonhos, daqueles que caem em gotas de chuva. Essas gotas de sonho ficavam espalhadas por todos aqueles que tinham a coragem de entrar na tempestade.

O truque era saber apanhar as gotas que faziam parte do mesmo sonho. Por isso, andava à procura da água que fazia parte da vida que ela queria materializar. Porque era só disso que ela precisava para ser feliz.

Toda as pessoas pensavam que ela era maluca. Era conhecida por aquelas bandas como a menina que apanhava a chuva.

Mal sabiam eles o que era maluquice!, pensava ela. E ria, ria porque podia rir com a vontade que só ela sabia sentir.

quinta-feira, dezembro 27, 2007

Dança Comigo, Danças?



"Camisa da cor dos cabelos,
blusa da cor dos olhos.."

Vaidosa!, manifesta-se ele.

Com vontade de ripostar, ela pensa, e, guarda para si:

"Vaidosa, mas do Amor que sinto por ti. Amar-te é música, que de cada vez que se solta uma nota, faz dançar um sem número de memórias que acontecem sempre que te vejo e penso em ti. Dança comigo, danças?"

domingo, dezembro 09, 2007

Caixinha de Madeira


Tudo passa, dizem.

Mas e tudo o que fica? Pergunto.

Porque não dizer: “vai ficar muita coisa, muita coisa, que possivelmente te irá acompanhar até ao último suspiro.”

Tudo passa?

É possível que muita coisa passe. A outras tantas coisas, possivelmente, acabamos por fechar os olhos para não as ver passar e para não as deixar abrir outras memórias.

É como abrir um frasco de memórias que cheiram e que sabem a hoje. E no entanto, já foram há tanto tempo.

Tudo passa? Ou tudo permanece guardado, com mais ou menos intensidade?

Será que essas memórias não ficam guardadas por escalas de cor, das mais coloridas às menos divertidas?

Se tudo passa, ficamos sem memória de nós mesmos. Se tudo passa, pouco aprendemos. Se tudo passa, não registamos nada.

A experiência que é minha, ou que já foi minha... É uma memória de paisagem verde, com cheiro de café amarrotado e um tapete vermelho de paixão.

É memória de música que foi tocada e que ainda toca e se propaga no espaço-tempo. Não passa.

Tudo numa caixinha de madeira que acumula o bilhete rasgado da primeira ida ao cinema, onde se acomoda o papel improvisado na mesa de café para escrever ‘Amo-te’, onde se prende a imagem, o cheiro e o sentimento do teu corpo nu colado ao meu.

É memória de cheiro, memória de amor, memória de ternura, memória de sentir...

É uma caixa de madeira que me acompanha e que de quando em quando abro para lembrar-me que sou capaz de amar com a intensidade de uma tempestade, a serenidade de um pôr-do-sol e a magia de quem descobre o amor pela primeira vez.

Não passa. É memória de mim que já não sou. Que fui porque só podia ser assim. É qualquer coisa que fez de mim o que sou hoje.


sexta-feira, novembro 03, 2006

1ª Sessão - Anamnese

Anamnesis do grego aná que significa trazer de novo e mnesis que significa memória.

Olha-se ao espelho. Ao contrário de Narciso não se apaixona por si próprio. No entanto, deixa antever o mesmo final trágico.

Olha-se ao espelho. A imagem reflectida é demasiado real para poder ser bonita. A expressão dura é marcada pelas emoções que o tempo teima em marcar no rosto.

Olha-se ao espelho. É o quadro vivo daquilo que não queria ser pintado em si.

Olha-se ao espelho. Admira-se.

“Se me quisesse tanto, quanto aquilo que em mim não me quer.”

Pensava.

“Aí, o que eu seria feliz”.

Dizia.

"Espelho, espelho meu, haverá alguém mais perdido do que eu?"