Inspiro-te
Queria eu que o teu cheiro não descolasse da minha memória
Inspira-me
Não leves saudade de mim
Leva o sabor do meu Amor
E leva memória de olhar que te acaricia assim te vê
Depois de subir-te montanha íngreme,
Depois de me anular e chegar a grão de areia
Grito por atenção e por retorno de qualquer coisa que nem se consegue dar nome
Que nome tenho eu?
De que imagem sou reflexo?
Que vida quero ser eu agora?
Viagem de mim até mim.
Corri tanto,
Cumpri tanto,
Responsabilizei-me tanto...
Entretanto o vazio colou-se, e,
Com ele instalou-se aquele doloroso sentimento que me dá falta de ar e sufoca.
Desapareceu tudo o que tinha à minha volta
E de repente não há nada
Olho o espelho e não me vejo
Os caracóis caem desalinhados
Os sinais já não parecem os mesmos
O verde do olhar deixou a cor do sonho
O sorriso não sorri da mesma forma
Aprender a respirar de novo
Um inspira
Dois expira
E o que me dizem as cartas?,
E os astros o que escrevem agora?
Complexidade, dificuldade, sensibilidade
Os símbolos que me pintam agora quais são?
Tu reclamas de mim.
Onde está a vida que tu eras?
Pressão de me encontrar,
Já a tenho desde ontem.
As notas dos teus passos
A cor da tua voz
Em sintonia escrita
Voam fumos de vidas que podiam acontecer
Sonhos perdidos que se cantam
Vozes de sereias adormecidas
Voos de pássaros
Nuvens que se prendem ao Sol
Vidas que se agarram a momentos
Passados inertes
Passados pesados
Passados caducados que vivem o presente como se de hoje se tratasse
Amor ancorado em mágoas
Pura Poesia a tragédia da vida
Puro Amor em laços sem nós
Lágrimas
Olhos transparentes de dor
Lógicas que se tentam juntar
Não há amor que não se faça tragédia
Não há tragédia que não faça crescer Amor
Estou sozinha? Estou em mim?
Possivelmente nunca estive em ti.
Ela e eu somos uma.
Um gorro de impotência,
um cachecol de falta de ar,
umas luvas de algemas e
umas botas pesadas que não servem para andar.
Apetece-me chorar sem parar. Para ver se sai tudo cá para fora. Não quero mais nada dentro de mim.
…
Ou então, queria magia. Magia para resolver o que parece impossível ser tratável.
"Camisa da cor dos cabelos,
blusa da cor dos olhos.."
Vaidosa!, manifesta-se ele.
Tudo passa, dizem.
Mas e tudo o que fica? Pergunto.
Porque não dizer: “vai ficar muita coisa, muita coisa, que possivelmente te irá acompanhar até ao último suspiro.”
É possível que muita coisa passe. A outras tantas coisas, possivelmente, acabamos por fechar os olhos para não as ver passar e para não as deixar abrir outras memórias.
Será que essas memórias não ficam guardadas por escalas de cor, das mais coloridas às menos divertidas?
É memória de música que foi tocada e que ainda toca e se propaga no espaço-tempo. Não passa.
Tudo numa caixinha de madeira que acumula o bilhete rasgado da primeira ida ao cinema, onde se acomoda o papel improvisado na mesa de café para escrever ‘Amo-te’, onde se prende a imagem, o cheiro e o sentimento do teu corpo nu colado ao meu.
É memória de cheiro, memória de amor, memória de ternura, memória de sentir...
É uma caixa de madeira que me acompanha e que de quando em quando abro para lembrar-me que sou capaz de amar com a intensidade de uma tempestade, a serenidade de um pôr-do-sol e a magia de quem descobre o amor pela primeira vez.