terça-feira, novembro 27, 2007

Fragilidades


O que dizer da fragilidade?

Será que pelo facto de conseguirmos ver a fragilidade do outro estaremos nós fragilizados também?

Ou então, será por já lá termos estado, que sabemos reconhecer imediatamente aquele sentir?

Mais ainda, evitaremos nós ao máximo esse encontro com o outro fragilizado porque não queremos olhar para dentro de nós e, reconhecer, que aquilo que nos faz comichão no vizinho é uma nossa circunstância interna mal resolvida?

Não sei. Não sei responder a nada disso. Só consigo fazer algumas congeminações mentais que acabam por ser improdutivas e que geram lixo mental.

O que é certo é que o encontro com os outros à minha volta está a deixar-me inquieta. Observo os mundos interiores dos outros e vejo que está tudo a entrar em colapso.

Encontro pessoas cada vez mais tristes. Será que sou que estou demasiado triste e que estou desperta para ver somente estes estímulos externos? Se for esse o caso, reclamo alegria até mim. Reclamo alegria para poder partilhar com os outros.

Vou ao Multibanco olho para o lado e vejo uma senhora a arranjar coragem para se atirar de uma varanda. Senti o terror dela, a tristeza profunda que ela carregava, a dor atroz que a estava a levar a tomar aquela atitude. Ouço-a, ou penso que a ouço a falar com ela. “Jogo-me ou peço por socorro? Se me jogar peço por socorro na mesma..? E será que tenho uma segunda oportunidade se por um momento magoar o meu corpo físico e poder reiniciar do ponto de partida nesta viagem que parece que deixou de ter sentido? Será que aí encontro o sentido? Onde é que estou eu? Não estou em mim, e ainda bem que não estou para não me poder ver. E se me matar, será que tudo termina de facto? E se for penalizada por isso? E se juntar pontos negativos na minha caderneta? E será que alguém vai sentir a minha falta? Porque é que ninguém me ouve? Porque é que ninguém me sente? O que faço com este vazio?”

É uma imagem que não me sai da cabeça. A imagem de alguém que quer acabar com aquilo que ninguém sabe como começou verdadeiramente e qual o objectivo final.

Chamei a polícia e rezei uma oração que saiu de um lugar qualquer de mim e pedi luz para aquela mulher. Não saltou, o apoio chegou atempadamente.

A dor que senti naquela altura, não era a dela... ou como dizer, não era só a dela. Era uma tristeza que vinha das profundezas da terra. Mas o que se passa com o mundo, com todos nós? Não me digam que é um sinal dos tempos. O que é que é isso do sinal dos tempos?

Esse dia foi determinante para mim. E espero que para ela tenha sido um ponto de viragem. E consigo compreender de uma forma mais ou menos elaborada o porquê desse acontecimento significativo e a ressonância interna que ele causou. Se estava a criar rotinas, a partir desse dia, ficou clara a minha necessidade de precisar ainda mais de mim.

2 comentários:

Lita disse...

Bem, que momento deve ter sido... Nem consigo imaginar!

Neptuna disse...

... sim, foi indescritível..