sexta-feira, junho 02, 2006

Respeito



Estou sempre a ler alguns (para não dizer muitos) livros ao mesmo tempo, é uma mania que não passa e que parece que com o tempo só tende a agravar.

Ando a ler de tudo um pouco. Agora um dos livros que me prende a atenção é “A Arte de Amar” de Erich Fromm, um piscanalista. É um livro que já andava a “olhar para mim”, que um dia comprei, e que como tantos os outros ficou na prateleira a aguardar a vez na fila de espera para ser lido. Lá está, às vezes a disponibilidade para ler não tem que ver só com o tempo da rotina instalada, tem que ver com outros tempos interiores que abrem outras portas de percepção.

Ainda não cheguei ao final livro, nem sei se o irei fazer. Às vezes compra-se um livro para chegar a um parágrafo, a uma linha que nos fala por palavras aquilo que vemos dentro de nós. E cumpre-se assim o propósito da leitura. Pelo menos, por agora. Mais tarde tira-se o pó, abre-se outro capítulo e retoma-se a leitura.

Voltando ao livro, Fromm apresenta uma escrita fluida, objectiva e orientada. Fala, tal como o título indica, do Amor. Ele afirma que
“não é só no amor que dar é receber. Os professores também são ensinados pelos seus alunos, os actores são estimulados pelo público, os psicanalistas são curados pelos pacientes – desde que não se tratem como objectos e se relacionem de uma forma genuína e produtiva.”

Entre muito daquilo que é dito, diz que no acto de amar a componente de dar, aquilo a que chama o carácter activo do amor, implica a existência de elementos básicos e comuns a todas as formas de amar. Esses elementos, de acordo com o autor, são o cuidado, a responsabilidade, o respeito e o conhecimento.

Cuidado activo pelo crescimento daquilo que se ama, responsabilidade face às necessidades psicológicas da outra pessoa, respeito para com o crescimento e desenvolvimento da outra pessoa por si mesma e o conhecimento objectivo daquilo que somos e daquilo que o outro é, para ver além da imagem ilusória por nós criada acerca daquela pessoa.

Aprendi pelo menos uma coisa nova até à data. E não tem que ver exclusivamente com o Amor mais “personalístico”, tem que ver com o Amor nas suas mais variadas formas. Respicere é a raiz etimológica da palavra respeito e que quer dizer “olhar para”. Há muito que falo nesta palavra, e com ela vem sempre uma sobrecarga emocional grande. Há uma mágoa que se cola automaticamente a ela. Não sei se por sentir que me sinto em falta desse olhar para comigo, de mim para mim, de mim para os outros e/ou dos outros para mim. Mas é sem dúvida por essa falta de “olhar para”.

10 comentários:

bisturi disse...

I'm speechless.. Não é assim que se fica quando alguém "nos fala por palavras aquilo que vemos dentro de nós"? :)

Bem hajas!

Neptuna disse...

:)

:*

Lita disse...

Aí está um livro que também está na minha prateleira.... comprado um dia, após meses de flirt, curiosidade, namoro....

Mas ainda na prateleira, à espera do dia de ser chamado pela minha alma.

Enfim, já valeu te-lo comprado, agora que sei que trás mensagens assim tão válidas.
Acho que vou começar a piscar-lhe o olho, novamente!!!!

Arco-Íris disse...

Aí está um livro pelo qual ainda não me apaixonei! Mas a verdade, é que ainda não tinha conhecimento da sua existência. Agora que me apresentaste esse maravilhoso néctar, vou pedir-te: podemos partilhá-lo, Neptuna? Aliás, podemos partilhá-lo, gajas do CSA?

Tao disse...

«Se digo eu, penso tu
Se digo tu, penso nós
Se penso nós, sou livre»

Talvez nestes versos encontres um "olhar para", o tal respeito que faz falta a qualquer ser...

Gostei muito do teu blog. Estás de parabéns!

Neptuna disse...

:)

Sim, vale a pena voltar a piscar-lhe o olho. Definitivamente. É sem dúvida um bom livro!

E claro arco-íris, já está partilhado!

Obrigado Tao pelos versos que apresentaste, fazem-me muito sentido e deram-me um "outro olhar". Agradeço também o elogio e os parabéns.. Fico contente por esse feedback!! Muito mesmo. :)

Daniel disse...

Tenho saudades... de Ler! :(

Neptuna disse...

Também tenho saudades... de ouvir música. :) Danielinho, fiquei apaixonada por Gomez.. Não conhecia e mais uma vez és tu que me apresentas a mais música de qualidade! É sempre bom passear-me pelo teu blog.

Se tens saudades de ler.. tenho uma novidade para ti: férias! Aproxima-se o merecido descanso do guerreiro. E tu mereces!

Uma beijoca!

Hecton P.Domingos disse...

Respeito Recíproco seria e é a forma de "amar" realmente, por mais que as paixões sejam "ilusórias", mas que carrega tanta intensidade, o respeito para com as ideologias alheias é sempre uma lâmina bem afiada e deve ser sempre usada...

Apenas o que tenho que ressaltar é que, é deveras difícil dominar nossas emoções, e por isso as vezes quebrando as regras...que muitas vezes nós mesmos criamos....

Ótimo texto como sempre....

Um Forte Abraço.

Neptuna disse...

Hecton,

sim, concordo. é muito complicado gerir as emoções. e é em alturas de paixão e/ou amor em que as nossas regras servem tão somente para serem quebradas.. e os nossos limites levados a um extremo que nós julgavamos impossível existir em nós.

Um beijinho!