sexta-feira, julho 07, 2006

Repetições


Parece que me vou repetir mais uma vez. Não faz mal. Diz quem sabe que da palavra nasce a luz. Espero que sim.

Espero não estar a entrar no campo da repetição excessiva. Seria a patologia a entrar em acção. E não faz a patologia parte do foro daquilo que não é criativo? Aqueles que supostamente são chamados de normais, arranjam respostas criativas às propostas que a vida lhes dá. Quando entramos no campo da repetição, entramos num estar em que usamos sempre a mesma resposta, que supostamente falha, e é aí que vamos comprovar aquilo que já pensávamos que iria acontecer. “Claro, eu já sabia que isto ia acontecer”. Da criatividade da resposta surge uma nova adaptação, um novo estar, uma outra iluminação e um outro campo de experiências aparece.

A partir de quantas repetições poderemos dizer que já entrámos no campo da patologia? Duas ou 200? O que me parece importante é a percepção de que em determinadas esferas da vida não se sabe agir senão daquela forma inconsciente. Somos empurrados quase que por uma força invisível até uma barreira. Essa força compulsiva cria uma obscuridade e provoca uma amnésia mental das artimanhas psíquicas que estiveram envolvidas no processo. Essa tomada de consciência poderá ser o fio condutor para o desbloqueio. Enquanto não "vem" essa tomada de consciência o que permanece é a dor psíquica, um mal estar interior que se progaga e impossibilita uma visão clara e objectiva.
O que é um padrão senão a inconsciência da repetição de um comportamento? De um hábito há muito instalado, que por isso mesmo já está emaranhado na rede global e complexa da mente. Sinalizá-lo, arrancá-lo desse emaranhado, observá-lo, estudá-lo, percebê-lo e depois modificá-lo. Ser criativo nessa modificação vai trazer mudanças significativas no ambiente interno, e, a qualidade daquilo que passamos para o exterior é diferente. Evidentemente que a qualidade daquilo que recebemos será também ela na mesma proporção. Aí nem é preciso falar para o exterior perceber a alteração, porque passamos a emitir um estar diferente e o que vem até nós é uma resposta em consonância com aquilo que começamos a produzir interiormente.

"Vamos mudar o disco? ...já tocou o suficiente e convenhamos..está riscado."

5 comentários:

Amorphico disse...

Gosto de pensar que tudo está bem...
Se chove, está bem. Levo o chapéu;
Se está sol, está bem. Posso levar o chapéu;
Se tenho uma faca espetada nas costas, está bem. Já não preciso do chapéu.

Se te repetes, está bem.
Se já não te repetes, está bem.

Se, quando dizes o que dizes, estás a dizer o que há para, por ti, ser dito. Isso está mesmo bem!

Estarás em harmonia e galvanizarás, para ti, os que em harmonia estão.

Tao disse...

Segundo o filósofo dinamarquês Kierkegaard, existem 3 momentos de repetição na nossa existência individual.
O primeiro surge na sequência do tédio, da solidão ou ainda do desespero, porque esses estados do ser são involuntários e o conduzem a conflitos não solúveis.
O segundo tem que ver com uma exigência do eu, um querer e dever perante uma situação de fracasso, impelindo-o a procurar a liberdade de que carece.
E, finalmente, a repetição produz-se como um acontecimento da existência, quando o eu acolhe a liberdade para poder continuar a viver, retomando o seu passado como algo de adquirido, apreendendo a densidade do presente, abrindo-se para o futuro.
Penso que somos todos condenados a ser como Sísifo, mas, ao invés da personagem mitológica, não devemos ver a repetição como um castigo, antes como um processo de aprendizagem, que, como qualquer processo, é lento e nem sempre claro.

Nonnus disse...

Adoro os teus posts e sigo-os atentamente há muito tempo (sou uma espécie de teu admirador secreto), mas gostei especialmente deste teu post sobre aquilo a que o Freud chamava (como tão bem sabes) "compulsão à repetição" e a que na Nova Era está na moda chamar "padrões"

É bem como nos sugere a síntese criativa do melhor da mecânica quântica com o melhor da ciência esotérica, "se tudo é energia - e a energia segue o pensamento - o pensamento cria a realidade, porque a realidade é pensamento em manifestação". E depois, como se da pólvora se tratasse, veio um senhor chamado Beck (como tão bem sabes) fundar uma escola de terapia baseada na identificação e modificação de pensamentos a que chamou "disfuncionais".. e assim os psicólogos "cognitivos" pensam que o que fazem é psicoterapia.. mas é aplicação de princípios metafísicos :-)) Se eles soubessem.. eheheh...

By the way. Já viste o "What the bleep do we know?" A Élia tem-no, pede-lho.

E continua a prendar a tua legião de admiradores com a beleza que trazes dentro - por favor. Se todos somos únicos, irrepetíveis e inestimáveis neste mundo, gosto de pensar que isso é especialmente verdade no teu caso.

Lita disse...

Bem... Nonnitos, estavas inspirado!!!!

Salvatori disse...

mais umas palavrinhas...

A repetição de algo pode revelar-se algo com significâncias completamente antagónicas, podendo revelar-se uma castração – uma forma de bloqueio dentro que um padrão ou de uma limitação – e ao mesmo tempo uma forma divinal de se manifestar a entidade criadora e criativa.

Exemplo prático:
O homem que varre o chão:
. Movimento castrador e limitante que o leva a fechar-se numa mecanização desmotivante daquela acção e da sua propria existencia...

Mas... e atraves de uma entrega de corpo e alma àquilo que é solicitado, ainda que pareça repetitivo...

Ser incutido um carácter espiritual e vivenciar criativamente aquela experiência, transformando cada movimento, cada postura e pensamento numa manifestação artística e espiritual.
“Podemos fazer tudo como se fosse uma arte, até mesmo varrer o chão”

A repetição pode ser o caminho de um aprefeiçoamento profundo e de interiorização verdadeira de cada gesto, postura e intenção...
tal como numa arte marcial, o espontaneo e o gesto que transcende o físico e material manifesta-se depois da repetição intensiva e cada vez mais profunda dessa mesma acção...
Caso contrário cada momento de meditação seria desnecessário, porque na primeira sessão teriamos a iluminação intemporal instantanea...!